Os pequenos estados se
têm feito valer demonstrando sua utilidade na arena internacional, mormente em
tempos de crise. Em tempos de policrise então…Cabo Verde, um estado
que muito se tem esforçado por se mostrar útil quando em cima da mesa estão
arranjos e combinações virados para a solução de conflitos, deve ter ciência e
consciência de a sua utilidade derivar
da coerência de seus posicionamentos, da racionalidade e da lógica das sua
atitudes e da previsibilidade em relação a matérias como a resolução pacífica
de conflitos, condenação das tentativas de solução por vias mais musculadas e,
sobretudo, alinhamento incondicional com soluções humanísticas para debelar o
sofrimento das comunidades humanas.Todos os Governos e
todos os Presidentes de República fizeram declarações inequívocas em relação ao
posicionamento de Cabo Verde em tudo o que diga respeito à proteção dos civis
abrangidos por conflitos; à solidariedade entre os povos; à solução negociada
dos conflitos; enfim, estas ilhas adotaram o Humanismo como forma de ser e
estar na comunidade das nações.Como aceitar que agora este mesmo país
condicione o seu voto a favor de um cessar fogo – para permitir o apoio a
populações civis em perigo de sucumbir a bombardeamentos e à carestia geral de
bens de primeira necessidade – à menção do responsável imediato pela crise? O
pior é que se entrarmos nessa onda de recuar no tempo em busca de culpados e
formos para lá do 7 de Outubro de 2023, poderemos chegar a um outro Outubro,
desta feita do ano de 1967, e aí teríamos o caldo entornado. Como pretender que o
Presidente da República – Chefe de Estado, Comandante Supremo das Forças
Armadas e representante da Nação no exterior – se conforme com “FACTOS
CONSUMADOS – em matéria tão séria quanto esta? É que não se trata de uma
votação de um assunto de somenos importância, nem de uma votação sobre questões
rotineiras. Estamos perante o condicionamento de um voto em favor da paz e da
solidariedade em função de quem tenha atirado a primeira pedra. Imaginem o Presidente da
República ter de esperar por uma reunião quinzenal para ser informado que
relativizamos a nossa postura humanista e em prol da paz e da resolução
pacífica dos conflitos! Que passamos a condicionar a postura humanista à
invocação dos culpados imediatos pela crise! E se nesse intervalo (entre duas
reuniões de informação) for solicitado a se pronunciar sobre o posicionamento
de Cabo Verde em relação a um eventual cessar fogo para abertura de corredores
humanitários faria o quê? Abster-se?!Aqui alguém se posicionou como aquele
indivíduo inescrupuloso que proclama que prefere pedir perdão a pedir
permissão, ser voluntarioso – e agir sem permissão – e depois se EXPLICAR. No
caso em pauta, preferiu-se ser voluntarioso – abstendo-se sem concertação
prévia – e depois INFORMAR ao PR, provavelmente 15 dias depois. Dá a impressão
de que se está perante uma manobra voltada para a desvalorização do papel do
mais alto Magistrado da Nação, em matéria de política externa, devendo este se conformar com brindes quinzenais
de factos consumados. Só lhe restaria chupar limão e…Conheço um filósofo de araque que, perante
pseudo dilemas e tendo alguma dificuldade em desmontar a marosca, opta,
invariavelmente, por esta saída pela tangente: “pera aí, meu chapa, isso não
pode ser assim; UMA COISA É UMA COISA E OUTRA COISA É OUTRA COISA”. Já o
estou vendo filosofar à volta do condicionamento do voto favorável (nunca será
demais repetir que a questão tinha a ver com um cessar fogo para facilitar o
socorro de civis na Faixa de Gaza) à menção de quem fez o quê para se ter
chegado à necessidade do socorro: UMA COISA É UMA COISA, OUTRA COISA É OUTRA
COISA. E teria carradas de razão: ensanduichados entre o terrorismo do
Hamas e o terrorismo de Estado de Israel, os civis da Faixa de Gaza, da
Cisjordânia e do Estado Israelita não poderiam – nunca, jamais e em tempo algum
– esperar ver condicionado um voto em favor da solidariedade internacional,
para com eles, à citação de quem atirou a primeira pedra.Quem tem medo de
Virgínia Woolf? Para um país em que a maioria da
intelectualidade defende pactos de legislatura e, mesmo, pactos de regime, para
algumas questões candentes, o que tem demais uma concertação prévia em algumas
matérias de política externa, mormente em momentos de grave crise
internacional, entre o Governo e o Presidente da República?Tendo a questão se
suscitado em plena reunião, com um aspeto que, eventualmente, não poderia ser
antecipado (veja-se o histórico dos posicionamentos de Cabo Verde na ONU e
noutros fora) a concertação seria difícil (estamos em tempos da
supremacia das TIC, mas o país estava semi-bloqueado em consequência da
agressão de que a Cabo Verde Telecom foi vítima). E isso seria uma excelente
desculpa do senhor MNE pelo seu, pouco menos que descuidado, voluntarismo. Mas
preferiu dizer que ao Presidente República basta servir frios relatos
quinzenais de factos consumados, ainda que em relação a aspetos estruturantes
do posicionamento de Cabo Verde na arena internacional. E foi uma pena…Que neste nosso tempo
não há almoços grátis, todo o mundo está careca de saber. Mas a grande e
insofismável verdade é que se existe algum respeito por este pequeno país,
pobre e insular, é porque sempre respeitou o critério de utilidade definido
pelos maiores protagonistas da geopolítica. E ou nos mantemos úteis ou vamos à
vida. Só que ser útil implica em posicionamentos coerentes (porque racionais e
lógicos) e em previsibilidade (pelo menos nas matérias em que fazemos alarde do
que cremos e fazemos por ser e parecer).E como vai ser? Mancando do jeito em
que mancamos neste dossier é não vai dar.Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº
1145 de 8 de Novembro de 2023.
